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Renata Kiara
Rádio Escuta
Quarta-feira, 27 de Maio, 2020 às 18:05h

Estação da natureza em Cornélio Procópio

Nos corredores por onde já passaram pioneiros, cafeicultores e até príncipe hoje estão aves diversas, como uma harpia, macacos, cobra, pinguim e até um urso.

Ponto inicial para a formação de Cornélio Procópio (Norte Pioneiro), o prédio da antiga estação ferroviária atualmente guarda outro tipo de história. Nos corredores por onde já passaram pioneiros, cafeicultores e até príncipe hoje estão aves diversas, como uma harpia, macacos, cobra, pinguim e até um urso. São animais que formam o Museu de História Natural Mozart de Oliveira Vallim, existente desde 2002.

O acervo conta com cerca de 300 peças, que pertencem ao odontólogo, biólogo e professor João Aparecido Galdino. Elas estão distribuídas com espécies de cinco biomas: Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica, Amazônia e os exóticos, animais que não são oriundos do Brasil. “São animais dos cinco continentes”, orgulha-se o docente. Já uma sala em que ficam guardados objetos de índios de várias tribos, seringueiros e a evolução embrionária, entre outras exposições, foi fechada depois que um dos instrumentos foi furtado.

A estrutura da antiga estação, situada no centro da cidade, foi adaptada para receber os “moradores”, com a parte arquitetônica sendo mantida. Os animais passaram pelo processo de taxidermia, técnica de preservação da forma da pele, planos e tamanho dos animais, em que toda a carne é retirada. O interior das peças é preenchido com serragem. Os olhos são de cristal.

Os animais ficam expostos em dioramas como em seu habitat, com vegetação, árvores, folhas e plantas que ajudam a entender a forma de vida dos seres ostentados. “Coloquei cada folha desta”, aponta Galdino, durante visita da reportagem da FOLHA ao local antes da OMS (Organização Mundial da Saúde) declarar pandemia do novo coronavírus. “Este museu se tornou referência nacional”, destacou.

VISITANTES
Os livros de registros contabilizam milhares de visitantes em 18 anos, vindos de diversas partes do País e até de fora. Tratando a natureza e tudo que nela vive com respeito, o professor busca transmitir esse mesmo sentimento a quem vai conhecer o local. “Se estou mostrando a natureza, estou mostrando Deus. Gosto de tratar todos bem”, indicou. “Quando as crianças vêm, ficam eufóricas”, contou.

De acordo com o secretário de Cultura do município, Rafael Haddad, muitos alunos de instituições de ensino de Cornélio e cidades da região vão ao Museu de História Natural, em que precisam fazer o agendamento. “Temos visitas para o ano todo. Para o município é muito bom ter este museu, pois, é um acervo único”, ressaltou. O poder público mantém o prédio com pagamento de água, luz, funcionário da limpeza e repassa mensalmente um valor pelo aluguel das peças. Atualmente, por conta da pandemia, o lugar está fechado para visitação.

ORIGEM
Todos os animais foram disponibilizados pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Polícia Florestal, sendo apreensões, e também por zoológicos, depois que os bichos morreram. O professor, que fundou o Instituto Harpia de História Natural, é membro da Sociedade Brasileira de Zoologia. “Conheço todos os zoológicos do País.”

REAL
Segundo Galdino, seu trabalho busca fazer com que os animais fiquem mais próximos ao real, se preocupando com a postura e outras especificidades. “Tem que ter aparência de vivo. Se faz postura morta e secou, não dá mais para mexer. Sempre me preocupei com os detalhes”, afirmou. Para complementar toda a ambientação do museu, ao fundo caixas emitem sons das aves presentes no lugar, levando o visitante a uma verdadeira imersão pelo ecossistema.

MELHORIAS
Recentemente, a Prefeitura de Cornélio Procópio iniciou a revitalização do entorno do museu, que apresentava marcas de deterioração. A empresa contratada tem 30 dias para finalizar os serviços, que contemplam melhorias numa passarela, calçadas e plantio de flores. Luzes de LED também foram instaladas.

DESDE CRIANÇA
Natural de Itambaracá – cidade do Norte Pioneiro e que o professor faz questão de remeter à denominação de origem: Jaborandi -, José Aparecido Galdino, 82, conheceu a taxidermia na década de 1960, quando foi cursar odontologia em São Paulo e visitava o Bosque dos Jequitibás, na região central de Campinas. Aprendeu observando um professor que fazia este tipo de processo.

O interesse pela natureza surgiu muito antes, quando era criança e com a família, de origem simples. “O passarinho tem um tipo de canto para cada situação, seja fuga, atração. Na natureza, fugir não é vergonha, mas sobrevivência, não vale o mais bonito e sim o mais forte”, elencou, trazendo o aprendizado inicial e a vivência.

Após se formar em odontologia voltou para o Paraná, começou a dar aulas, também cursou biologia e passou a atender casos de animais com problemas odontológicos pela falta de profissionais neste campo de atuação. O acervo do odontólogo, biólogo, taxidermista e professor reúne mais de sete mil peças. A maior parte está guardada numa sala da Uenp (Universidade Estadual do Norte Pioneiro), campus Cornélio Procópio, onde é docente.

As demais estão distribuídas no Museu de História Natural Mozart de Oliveira Vallim, em Cornélio, e em Foz do Iguaçu (Oeste). “Tenho uma sucuri de 7,42 metros que não encontra em zoológico e museu nenhum do mundo. Fui buscar todos os animais que tenho. Ia fazer tratamento odontológico e acabava voltando com o carro cheio de animais mortos, por outros motivos, claro”, relembrou. Ele ainda reconheceu os altos gastos que já teve. “Era o que gostava de fazer.”

Ainda na ativa e com um conhecimento sobre espécies e formas de vida animal que dificilmente se encontra, Galdino mencionou que quanto menor o bicho, mais difícil é a taxidermia. “O animal maior é mais fácil para colocar a armação e serragem. Já com os menores é necessário ter muito cuidado no manuseio, preparação”, esclareceu.

*FONTE: FOLHA DE LONDRINA